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  • garcez33

Uma Situação Complicada....


Estava terminando o expediente da sexta-feira antes do carnaval de 2018, quando recebemos uma ligação de São Paulo. Alguém queria saber se tínhamos lugar para receber e hangarar um helicóptero EC-130 que chegaria no dia seguinte e permaneceria até quinta-feira. Traria umas pessoas para passarem o carnaval em Canoa Quebrada. Tratava-se da aeronave PR-YHB que já havia ficado no nosso hangar algum tempo antes. Acertamos o preço e os detalhes do serviço, ficando tudo combinado para recebê-lo no sábado.

No horário acertado, o helicóptero pousou, foi recebido e levado para dentro do hangar. Os passageiros e o piloto seguiram de carro para os seus destinos na praia. Só voltaria a ter expediente novamente na Chopper Solution na parte da tarde da quarta-feira de cinzas.

Segunda-feira o Bispo me informou ter recebido uma ligação do controle de tráfego aéreo relatando que uma aeronave havia decolado do heliponto da Chopper Solution, realizado um circuito de vôo e pousado novamente, sem apresentar uma notificação de vôo, conforme prevê a regra. Eles não puderam identificar a aeronave, já que não havia nenhum código específico, mas como o transponder da aeronave estava ligado, pelo radar primário identificaram o local de decolagem e de pouso. Queriam que informássemos a matrícula da aeronave para lavrar o auto de infração de vôo.

Liguei para a portaria da empresa e fiquei sabendo que o piloto do PR- YHB havia decolado naquele dia e pousado uns quinze ou vinte minutos depois.

Quinta-feira, dia 15 de fevereiro, quando cheguei à empresa, me deparei com um grupo de cinco homens na recepção. Fui informado de que eram passageiros do YHB aguardando serem chamados para o embarque. Observei o piloto no pátio recebendo a aeronave. Em seguida, foi buscar os passageiros, todos embarcam e a aeronave decolou com seis pessoas à bordo.

Pouco tempo depois, talvez, algo em torno de vinte minutos, a aeronave pousou de volta. Estava apenas com o piloto e mais um passageiro. Não estranhei, porque era comum os helicópteros deixarem passageiros nos mais variados destinos. Desta vez, no entanto, o piloto estava afobado. Pediu para completarem os tanques de combustível da aeronave com rapidez porque precisava decolar logo. Em seguida, pagou as despesas e decolou, iniciando o seu trajeto de retorno para São Paulo.

Na noite de sábado, vi na televisão a notícia sobre o corpo parcialmente queimado, do traficante conhecido como Gegê do Mangue, importante membro de uma conhecida facção criminosa do País, encontrado em uma reserva indígena nas proximidades de Fortaleza.

Na manhã do dia seguinte, domingo, o vigilante da Chopper Solution ligou informando sobre um carro que estava passando já algumas vezes pela frente da empresa, à baixa velocidade, parando por longos períodos, de forma muito suspeita. Informei que ele aguardasse mais trinta minutos, se o carro continuasse por lá, chamasse a polícia. Antes desse tempo, no entanto, o carro foi embora.

Pouco tempo depois de chegar ao hangar da empresa, segunda-feira, fui procurado por um grupo de policiais, acompanhados de um dos pilotos da polícia, nosso conhecido. Ele me pediu para irmos para uma sala reservada. Fiquei surpreso e preocupado com a tensão do momento. Fomos para uma sala de reuniões. Perguntaram se eu havia notado alguma atividade estranha durante o carnaval. Respondi que não havia tido expediente na empresa e que eu não lembrava de nada que tivesse me chamado a atenção. No entanto, no domingo seguinte ao do carnaval havíamos notado a presença estranha de um carro nas proximidades do hangar. Eles disseram que era um carro da polícia. Fiquei surpreso. O piloto da polícia, nosso conhecido, havia dito para os demais policiais que nós tínhamos câmeras de vídeo por toda a empresa e que as imagens poderiam esclarecer tudo. Eu confirmei e fomos para a sala do monitoramento.

Eles pediram para ver as imagens desde o início do carnaval. Quando apareceu o pouso do PR-YHB, expliquei que tratava-se de uma aeronave vinda de São Paulo trazendo gente para o carnaval em Canoa Quebrada. Falei do vôo realizado na segunda-feira, sem notificação de vôo, e do retorno para São Paulo, na quinta-feira. Pediram para ver as imagens desse dia. Temos câmeras cobrindo o portão de entrada da empresa, a frente e o interior do hangar, a sala de recepção e todo o pátio de estacionamento de aeronaves. Os policiais viram parte dos passageiros desembarcando de um táxi no portão de entrada e outros chegando de carro no estacionamento da empresa. Com a imagem de todos reunidos na sala de recepção, eles identificaram positivamente alguns dos passageiros como pessoas de longa ficha criminal. Entregamos para a polícia os arquivos com os vídeos e os registros físicos com os nomes, identidade e a hora em que entraram na empresa, bem como, os dados da aeronave.

Só então, ficamos sabendo que estavam investigando a morte de Gegê do Mangue, cuja o corpo havia sido encontrado em uma reserva indígena do vizinho município de Aquiraz. Sabiam, também, que um helicóptero havia pousado no local, dois dias antes do corpo ser encontrado. Inicialmente, desconfiaram de que seria um helicóptero fretado da Chopper Solution.

Nos dias seguintes, todo o pessoal que, direta ou indiretamente, teve contatos com o piloto, com a aeronave ou com os passageiros, teve que ir prestar depoimento na polícia. Emissoras de TV enviaram cinegrafistas e repórteres para tentar colher imagens do local e falar com integrantes da empresa sobre o fato. Foi uma semana difícil e tumultuada. Os clientes ficaram apreensivos.

Com o desenrolar das investigações, ficamos sabendo que o helicóptero PR-YHB havia sido apreendido no interior do estado de São Paulo. Realmente prestava serviço para a facção do crime organizado. Na verdade, ele havia vindo para Fortaleza com a finalidade de participar daquele assassinato. Os passageiros para o carnaval em Canoa Quebrada era somente uma história de cobertura. O vôo realizado na segunda-feira de carnaval foi para reconhecer o local do crime. Por um descuido do piloto, voou com o transponder ligado, embora não tenha feito nenhum contato com o controle de tráfego aéreo.

Na quinta-feira, dia do assassinato, a aeronave decolou da Chopper Solution e pousou no local escolhido para o crime, onde deixou as pessoas encarregadas da sua execução. Decolou até um heliponto da praia do Futuro, onde a vítima embarcou, imaginando que seguiria em um longo voo para a Bolívia, a ser realizado em várias etapas. Após a decolagem, com a aeronave já em voo, foi simulada uma pane, para justificar o pouso naquela região erma. Logo que a aeronave tocou o solo, a vítima desembarcou e foi assassinada. Imediatamente, o helicóptero decolou de volta para a Chopper Solution com a intenção de reabastecer, fechar a conta e iniciar o retorno para São Paulo.

Tudo isso foi muito difícil para a Chopper Solution. Não foi nada fácil manter a imagem da empresa longe dos noticiários das TVs. Os clientes, de uma maneira geral, ficaram preocupados com essa exposição negativa. Apesar de tudo, conseguimos administrar bem a situação, sem maiores danos colaterais. Constatamos que um bom sistema de vigilância e monitoramento é eficaz. Foi graças a ele que conseguimos comprovar tudo o que falamos no primeiro contato com a polícia. Os registros físicos de nome, identidade, placas de veículos e horários de entrada e de saída nas instalações da empresa, também foram fundamentais.

O PR-YHB foi colocado pela justiça à disposição do estado do Ceará para ser utilizado pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social, por intermédio da CIOPAER, no policiamento do estado. Para isso, precisou ser reparado e pintado com as cores padrão das aeronaves da polícia cearense. Coube à Chopper Solution realizar esse serviço. Foi com muito orgulho e satisfação que entregamos ao estado, o helicóptero que anteriormente fora utilizado pelo crime organizado e que tanta preocupação nos trouxera, agora preparado, padronizado e “uniformizado” para prestar bons serviços para

a sociedade cearense.



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