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  • garcez33

POUSO COM PANE DE ROTOR DE CAUDA

Atualizado: 22 de Set de 2020


Era mais um voo de Macaé para as plataformas, no caso, a SS-37, uma plataforma estrangeira a serviço da Petrobras. Era o segundo voo do dia. Já tínhamos pousado em duas outras plataformas no voo anterior.


Eu estava voando com o Comte Serra, um experiente piloto português, naquele momento, em transição do S-76 para o AS-365 N3 Dauphin. Como o mais experiente no modelo, eu voava do lado esquerdo, na função de instrutor. Voávamos a aeronave PR-MEM.


O Serra conduzia a aeronave. Abandonou a aerovia e aproou à plataforma, a quinhentos pés. Ao nos aproximarmos da plataforma, verificamos que o pouso seria para o meu lado, o esquerdo, e, conforme acertado no “briefing”, assumi o comando da aeronave para realizar o pouso.


A velocidade já havia sido reduzida de 135 kt para, aproximadamente, 100kt quando assumi. De imediato, estranhei a grande amplitude de pedal direito aplicado. Imaginei que estivesse com um vento forte de cauda. Olhei para a biruta da plataforma e constatei que estávamos aproado ao vento, com uma variação de +/- 10 ou 15º. Não desconfiei de pane do rotor de cauda. Continuei a aproximação, reduzindo a velocidade e aplicando pedal direito. Quando me dei conta, o pedal estava no batente e a aeronave iniciou um forte giro para a esquerda. Aí me veio à cabeça a perda do rotor de cauda. Como vi que já estávamos sobre o helideck, abaixei de imediato o coletivo. Na verdade, literalmente, joguei a aeronave no deck. Ela pousou com uma defasagem de 180º em relação à proa de aproximação. Com a inércia, ela ainda continuou girando no deck, arrastando os pneus do trem de pouso. Pensei que ela fosse capotar. Estava com sete passageiros a bordo. Todos estavam bastante assustados, o que não era para menos, já que os pilotos também estavam. Os motores do helicóptero foram cortados normalmente. A equipe de apoio do plataforma aproximou-se com presteza.



Os dois mecânicos que nos vieram socorrer chegaram de navio e foram embarcados na SS-37 por um guindaste. Permanecemos três dias na unidade marítima, interditando o helideck.

Após o início dos trabalhos, a equipe de manutenção, constatou uma folga em um dos eixos da caixa de transmissão traseira. Havia, também, limalhas. Em decorrência desse incidente, algum tempo depois, a Eurocopter, fabricante do helicóptero, emitiu um boletim com novas orientações a serem observadas na manutenção do rotor de cauda dos "Dauphins".


Analisando os fatos, estou convencido de que um grave acidente foi evitado pela sorte da eficiência do fenestron ter sido perdida já sobre o Helideck, o que permitiu o pouso da aeronave. Contou muito, também, o treinamento no simulador, que permitiu a execução do pouso sem nenhum deslocamento lateral o que, no ambiente restrito do helidack, teria consequências catastróficas.


Graças a Deus tudo terminou bem. Disso tudo, tirei alguns ensinamentos. O principal deles é que, de agora em diante, qualquer anormalidade nos pedais, vou imaginar primeiramente que estou com pane de rotor de cauda. Só quando descartada essa possibilidade, vou procurar outra.

Comte Garcez




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